sexta-feira, 17 de julho de 2015

GLEISER, Marcelo. A Dança do Universo. pág. 266.


"Quando tentamos organizar o mundo que nos cerca, o uso de opostos é extremamente útil. Dia-noite, fêmea-macho, morto-vivo, esquerda-direita, rico-pobre, as polaridades estão por toda parte. É muito provável que o nosso próprio cérebro seja produto dessa realidade polarizada, bem adaptado ao mundo onde ele deve funcionar. Em outras palavras, organizamos o mundo à nossa volta em termos de opostos porque nosso cérebro, sendo produto de interações otimizadas com essa realidade externa, foi desenvolvido para funcionar dessa maneira.
Essa seria, numa versão simplificada, a explicação oferecida pela teoria da evolução para o desenvolvimento de nosso cérebro a partir da seleção natural. Mas, se esse for de fato o mecanismo através do qual nosso cérebro evoluiu, somos obrigados a enfrentar uma questão bastante desagradável. Se nosso cérebro, e, portanto, o modo como pensamos, é produto do ambiente em que ele funciona, será que podemos construir uma visão “pura” do mundo? Em outras palavras, será que podemos transcender a limitação de sermos “criaturas do mundo”, de modo a construir uma visão realmente completa, sobre-humana, da realidade? Ou será que estamos aprisionados dentro de nossos próprios mecanismos racionais? Parece que temos de aceitar o fato de que nossa percepção da realidade é realmente limitada.
Eu me convenço de que, mesmo que “novos” horizontes possam existir, eles são horizontes em fuga, que nunca serão atingidos; numa terra de horizontes em fuga, um viajante inspirado sempre encontrará novas maravilhas. Pelo menos, essa é a minha metáfora para a criatividade humana.
E assim, armados com nosso cérebro finito, nos questionamos sobre o infinito e sobre como transcender a realidade bipolar em que vivemos".


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