GLEISER, Marcelo. A Dança do Universo. pág. 266.
"Quando tentamos
organizar o mundo que nos cerca, o uso de opostos é extremamente útil.
Dia-noite, fêmea-macho, morto-vivo, esquerda-direita, rico-pobre, as
polaridades estão por toda parte. É muito provável que o nosso próprio cérebro
seja produto dessa realidade polarizada, bem adaptado ao mundo onde ele deve
funcionar. Em outras palavras, organizamos o mundo à nossa volta em termos de
opostos porque nosso cérebro, sendo produto de interações otimizadas com essa
realidade externa, foi desenvolvido para funcionar dessa maneira.
Essa seria, numa
versão simplificada, a explicação oferecida pela teoria da evolução para o
desenvolvimento de nosso cérebro a partir da seleção natural. Mas, se esse for
de fato o mecanismo através do qual nosso cérebro evoluiu, somos obrigados a
enfrentar uma questão bastante desagradável. Se nosso cérebro, e, portanto, o
modo como pensamos, é produto do ambiente em que ele funciona, será que podemos
construir uma visão “pura” do mundo? Em outras palavras, será que podemos
transcender a limitação de sermos “criaturas do mundo”, de modo a construir uma
visão realmente completa, sobre-humana, da realidade? Ou será que estamos
aprisionados dentro de nossos próprios mecanismos racionais? Parece que temos
de aceitar o fato de que nossa percepção da realidade é realmente limitada.
Eu me convenço de
que, mesmo que “novos” horizontes possam existir, eles são horizontes em fuga,
que nunca serão atingidos; numa terra de horizontes em fuga, um viajante
inspirado sempre encontrará novas maravilhas. Pelo menos, essa é a minha
metáfora para a criatividade humana.
E assim, armados com
nosso cérebro finito, nos questionamos sobre o infinito e sobre como
transcender a realidade bipolar em que vivemos".
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